O descanso não é civilizado

 Na lógica civilizatória, descanso virou recompensa, pausa para produtividade, anestesia para o ser-no-mundo. Mas descanso verdadeiro não se organiza, ao menos não deveria, se faz, se solta, se sente, só é, ele se impõe como desordem. 

Existe um momento de suspensão? Penso que suspender de tudo, de pensamentos, de julgamento, de preocupação, de afazeres, de cobrança, de preocupação, de socialização, do ego, do civilizatório, das normas, dos padrões, da beleza, de qualquer coisa mais que se sutente, pode ser um caminho para um possível - e real - descanso. É na desordem e no desentorpecimento do mundo que há saída para o que se é, de fato, e quando se é, há espaço, há essência, gera abrigo para si!

Civilização não é descanso, é cobrança, é performance, é controle, é demanda, é dar de si, é doação e é ação. 

É o desconforto do qual tanto fugimos em meio a tudo que nos cansa, que se encontra a vida. Descansar é desmontar o ego, abrir mão de máscaras, é tirar qualquer possível persona, se possível, até as roupas, é só ser. A natureza bem sabe, descansar pode ser como pisar nas terras como quem pisa no próprio coração. Há descanso onde há verdade. A casa, então, vira um templo, seu próprio memorial de existência, um espaço onde não se precisa fingir. 

Se relacionar, se conhecer, se abrir ao infinito de si e do outro cansa. Sustentar a vida em sua inteireza exige força, dinâmicas e preparos. 

Portanto, a vida não é a falta, é o excesso do real e todo excesso pede canalização. Existir gera tensão, que também é tesão, gera energia vital querendo forma. Só que, ao contrário do que prometeram, cumprir tudo, resolver tudo, entender tudo...não gera grandes recompensas satisfatórias ao intrínseco, ao íntimo, ao real (talvez ao ego). Por isso, viver gera vazios quando muito se ocupa da "não-vida" e do outro, porque isso não tem fim. Descansar é na solidão, é na canalização, na pureza do que é ser. 

A civilização quer a superfície, mas a vida exige profundidade. Arrisco em dizer que descansamos em nosso íntimo, no real e no profundo. E é isso que nos fortalece! 




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