Quando o ciúme é só um espelho

Fui encarar meu ciúme de frente. Há tempos, ele me confronta e eu tentava afastá-lo como se fossem apenas pensamentos intrusivos ou crenças antigas, que insistiam em voltar. Acreditava que eram resquícios de outras relações, gatilhos disparados por algo externo. Mas, ao revisitar minhas feridas, percebi que nem tudo se resumia ao passado, havia algo mais profundo, mais meu.

O ciúme é uma emoção e isto não surge do nada, ela tem um estímulo. Só que, muitas vezes, não enxergamos qual é. Sentimos e projetamos no outro, como se a causa estivesse fora, quando, na verdade, é apenas o sintoma contornando uma dor que já existia dentro de mim, buscando forma para ser finalmente vista.

Essa percepção veio em uma noite qualquer, lendo capítulos sobre ciúmes em "A gente mira no amor e acerta na solidão" (leitura necessária) e, ao mesmo tempo, tendo uma conversa que me colocaria naquele lugar de desconforto novamente. Era um estímulo contraditório: o que escuto está dentro do que acredito, mas ainda assim, reverberando naquela inquietação. Não havia como fugir, cansei e decidi que precisava conectar os pontos.

E então, voilà: o que estava debaixo do tapete se revelou. O ciúme não era sobre o outro. Era sobre a minha solidão, o grande tema da minha vida. Percebi o vazio que ecoa no não-pertencimento e isso rebate como luz em um espelho que está em minha frente, ilumina à mim, incomoda meus olhos e não me deixa ver que o reflexo no objeto é meu mesmo. 

Pouco importa com quem o objeto de desejo compartilha seu tempo. O que dói é o eco do meu próprio vazio, a sensação de não pertencer naquele lugar ou em um meu próprio, a ansiedade por um lugar que ainda está em construção. Por isso, esse incômodo não vem de fora e sim, vem da dúvida sobre meu próprio valor. Qual é o meu espaço aqui ou em qualquer outro lugar? Será que ocupo algum espaço (simbólico ou não) que me sustenta no dia a dia, ou estou sempre à espera de uma estrutura que ainda não tem teto nem paredes?

O ciúme, então, não é sobre o outro, mas sobre o que ele reflete em mim: a insegurança de não me sentir única, a angústia de não saber se o que ofereço é suficiente para "conquistar" um lugar fixo no afeto alheio. Mas será que essa conquista, essa terra firme, realmente sana a solidão? Ou será que ela apenas a disfarça, enquanto a sombra do vazio permanece? A solidão como angústia existencial novamente. 

O que me causa desconforto não é o que acontece lá fora, mas o que já existe e acontece aqui dentro. Quando vejo o outro em outras dinâmicas, em espaços que não compartilho, não é o ciúme que se move, é a solidão que ressurge, lembrando-me de onde não estou, do que não sou, do que não dou. A luz bate e a sombra que se desenha me mostra o abismo entre o que imagino e o que realmente é.

E então, não há escapatória: preciso me responsabilizar pelo que sinto. Se não há regras quebradas, se não há nada fora do lugar, o incômodo é meu aí só eu posso cuidar dele. 

Penso que, talvez, a solidão não vá embora, nem mesmo nas presenças. Ela é uma companheira existencial, uma angústia que não se resolve com pertencimento, mas com a firmeza de quem se reconhece. Não precisamos pertencer para ser. 

Não se trata de garantir um lugar no outro, mas de saber quem somos e ter segurança nisso. A solidão dói, mas também ensina: não somos menos por estar sozinhos, nem mais por sermos escolhidos. O auto valor não vem de fora, deveria vir do entendimento de que já somos completos, mesmo quando o vazio insiste em sussurrar o contrário.

E assim, faço as pazes com minha solidão. Não para vencê-la, mas para conviver com ela. Porque, no fim, o ciúme era só um aviso: um chamado para olhar para dentro, encarar o que já estava lá e, enfim, me reconhecer inteira, mesmo nas ausências.


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