Quando tiramos a chupeta, o que nos resta para a fuga?

Percebi, ao longo dos anos, que assim como os bebês buscam o peito para se acalmar, numa fuga ingênua de lidar com o desconforto recém conhecido da vida, nós, assim continuamos a fazer ao longo de toda nossa existência. Buscamos conforto na fala, no beijo, no cigarro, na comida e tantos outros deslocamentos do mesmo. Então, seria no que entra para preencher algo? Sim. Para calar um pouco o que tenta escapar? também. Mas o que pude perceber é que essa busca do gozo na satisfação de tamponar desconfortos, muitas vezes nos leva à "chupetas" que não nos fazem muito bem. E ao passar por processos de sofrimento psíquico agudo, senti falta de alicerces, de válvulas de escape para fugir de mim, da dor, do tédio, do cansaço e mais ainda, da ansiedade.


Durante a pandemia, recebi uma enxurrada de conteúdos que me colocaram diante de uma rotina de autocuidado mais criteriosa e consciente. Nesse período, eu estava migrando da adolescência (redefinida pela neurociência) e entrando nos meus 25 anos, um momento que houve muita transformação e amadurecimento. Foi a época que comecei a cuidar mais de mim, por motivos externos, mas que fizeram o tiro acertar pela culatra. Mirei numa coisa e acertei em outra, pois, entendi que esse ritual me fazia bem de maneiras que não imaginava, era como me auto cariciar, me auto regular e me desacelerar.


Foi aí, que, por acaso, criei minha primeira ferramenta para sustentar a vida. Se tudo está um caos aqui dentro e lá fora, ao ponto de me desregular e evocar emoções desconfortáveis, sei que é a hora de me cuidar para cuidar de qualquer outra coisa.


Só que aí, mesmo me cuidando ao longo dos anos, pude perceber que só isso não seria o suficiente. De quando em quando, a ansiedade ainda me pega e como cuidar disso? Pra responder essa questão, tive que pausar tudo, aproveitei um furo no meio da rotina, de um momento que me liberaram de uma atividade e não me colocar diante de outra, (já que tarefas são infinitas) então, parei e fui pensar na vida. Levei dias ainda refletindo sobre tudo que estava me ocorrendo, até que sentada, numa noite de segunda, na rede, percebi como me sinto com a música. Não é novidade o que ela me causa, mas a perceber como ferramenta para minha ansiedade, ligar esses pontos de efeito dela sobre necessidade desse mal estar, fez todo sentido. Porque se a prescrição do que eu determino fazer para cuidar da minha ansiedade, além do auto cuidado, respiração e foco no presente, são movimento do corpo e conexão com o que eu gosto. Aí pensei, se a música me distrai, tendo a capacidade de me tirar dos meus pensamentos, me distrai sem me dá estímulos que me cansem a mente, me faz dançar (movimento), me faz cantar (respiração e extravaso), então é isso, devo entendê-la como uma nova ferramenta para lidar com a vida.

Agora tenho as seguintes ferramentas para acessar quando a ansiedade bater:
Autocuidado, escrita, natureza, música, corpo, relações, voz e presença.

Não foi o acesso que me salvou, mas o sentido. Tudo isso já estava ali, ao alcance — como um martelo sobre a mesa, útil apenas quando decidi martelar. A natureza deixou de ser paisagem e virou testemunha. A presença, essa atitude natural e que deveria ser mais consciente como tem sido, brotou não como dom, mas como ato ativo: estou aqui, olhe o que está ao seu redor. Está pensando demais ao passar pela cidade? Que tal olhar os detalhes das pichações, dos prédios, das pessoas que passam e descrever em sua mente o que se vê? E assim, peça por peça, o que era fuga virou travessia. Não há transcendência, só o movimento de usar as ferramentas até que elas façam cicatriz. O sentido não estava nelas, mas no uso.


E antes que pense o contrário, a ansiedade não desapareceu. Apenas aprendeu a dividir espaço com o cheiro da terra, com o verso que não rimava, com a mão que segura a minha no escuro. E isso, talvez, seja o mais perto que eu chegue de liberdade: não a ausência de peso, mas o jeito de carregá-lo.



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