Algumas questões deixo em blocos de notas, gosto do que fica à vista. É bom olhar para o que não se quer perder. E mesmo, às vezes, já estando tudo internalizado, a mente humana requer organização, estrutura, a minha então... e hoje me deparei com umas anotações que me fizeram escrever esse texto.
Venho vivendo um processo externo e interno, bem nessa ordem. Ideias que lá trás me apresentaram, que falavam sobre formas de entender o existir e a psiquê, me tocaram de uma forma intensa, deram espaços para eu refletir sobre tudo que viria, sem abrir mão do que cada lado frisava. O problema aqui é que me disseram que eu deveria seguir um caminho acompanhada por uma dessas formas de lidar com a mente humana. Não consegui fazer rompimentos, tendi a um lado pelo o que coube no momento, mas nunca desconsiderei a importantância de cada abordagem. Mas e agora? O que fazer para conseguir integrar duas formas diferentes de compreender a angústia humana: a psicanálise e o existencialismo. Para mim, esse encontro não foi só uma escolha teórica ou profissional. Foi também um movimento pessoal. E, como meu trabalho caminha junto com a vida, achei importante dividir esse percurso com quem me acompanha por aqui, seja como leitor, seja como paciente.
É curioso, porque ao integrar duas perspectivas pode até parecer que escapei da renúncia, como se fosse possível ter tudo. Mas foi o contrário. Escolher integrar foi justamente aceitar que não existe teoria completa, que toda escolha carrega ausências e que, mesmo assim, seguimos tentando dar conta de existir.
A angústia, para mim, nasce tanto daquilo que nos falta quanto da liberdade que temos de fazer algo com isso. Ela vem da ausência do que desejamos, do que não conseguimos controlar, do que não depende só de nós. E vem também do fato de que ninguém pode escolher por nós. Somos lançados ao mundo com a tarefa de responder àquilo que nos falta. E essa resposta nunca vem pronta, precisamos inventá-la a cada passo.
Ao fazer algo com a falta, escolhemos. E ao escolher, inevitavelmente, renunciamos. Perdemos o que poderia ter sido. E ainda assim, somos responsáveis pelo que escolhemos ser, fazer ou sustentar.
Essa reflexão pode parecer distante, mas na prática ela toca a vida de todos nós. Seja quando ficamos parados diante de uma decisão difícil, seja quando nos cobramos por não ter seguido outro caminho. A angústia aparece nesses momentos, não como sinal de fracasso, mas como sinal de que há vida acontecendo. Há desejo, há movimento, há responsabilidade.
Falar disso com quem me lê é um jeito de dizer: está tudo bem se você se sentir dividido, confuso, angustiado. Está tudo bem se escolher algo e depois sentir a ausência do que não foi escolhido. A vida é feita dessas tensões. E talvez a saída não seja escolher entre uma coisa ou outra, mas reconhecer que podemos integrar, criar um jeito próprio de caminhar entre a falta e a liberdade.
Porque no fundo é isso que todos estamos fazendo. Tentando dar conta de ser quem somos com o que temos, com o que falta, com o que desejamos e com a liberdade de fazer alguma coisa com tudo isso.

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