O que é sustentar o furo?
O que é esse vazio de onde, às vezes, não vem nada?
Por que o que nos transforma é, tantas vezes, aquilo que ainda não conseguimos nomear?
O autoconhecimento nem sempre começa com uma resposta.
Às vezes, ele nasce de um silêncio. De uma sensação sem forma.
De um incômodo que volta.
De um gesto que se repete.
De uma pergunta que não para de ecoar, mesmo quando o mundo manda seguir em frente.
E, diante disso, muitas vezes, ouvimos conselhos.
Frases feitas. Dicas práticas. Diagnósticos prontos.
E tudo isso pode até oferecer algum alívio por um instante, mas quase nunca alcança aquilo que está por trás.
Porque o que está por trás... ainda não tem nome.
É aí que entra uma escuta diferente. A escuta de um psicólogo ou psicóloga.
Uma escuta que não busca consertar, mas acompanhar.
Que não se apressa. Que tolera o não-saber para que o saber verdadeiro, aquele que nasce de dentro, possa emergir.
É uma escuta que sustenta o furo.
O furo que existe em cada um de nós.
Aquilo que falta.
Aquilo que dói.
Aquilo que não entendemos, mas sentimos.
E que, por isso, tem valor.
Na terapia, o silêncio tem lugar. A pausa não é desvio, é travessia.
O vazio não é fracasso, é possibilidade.
Ali, com alguém ao lado, você pode se perguntar:
O que sinto com isso?
Como é isso para mim?
Desde quando sinto assim?
Existe algo depois disso?
Essa escuta acompanhada permite que você vá se aproximando de si.
Sem pressa.
Sem fórmula.
E, nesse processo, pode surgir uma palavra nova. Um gesto diferente. Um sentido onde antes havia apenas confusão.
Ou ainda não. Às vezes, é só mais silêncio mesmo. E tudo bem.
Porque se há espaço para o que você ainda não sabe, há também espaço para o que poderá vir a saber.
A fenomenologia chama isso de abertura.
A psicanálise, de desejo.
Ambas confiam no que está por vir, mesmo quando ainda não apareceu.
É nessa escuta que a pessoa se torna sujeito.
Sujeito do seu caminho, da sua escolha, da sua própria reconstrução.
Como dizia Sartre, o ser humano é aquilo que faz de si mesmo.
Mas para fazer-se, é preciso primeiro poder escutar-se.
E isso, às vezes, só é possível quando outro escuta junto.
Um terapeuta não revela a sua verdade.
Mas te ajuda a sustentá-la até que ela tenha forma.
Ele não tapa o buraco. Mas te acompanha à beira dele, até que o buraco diga algo.
Ele não oferece um mapa, mas segura a lanterna com você.
O autoconhecimento não é um projeto solitário.
É um processo acompanhado.
É pela relação com o outro que vamos reconhecendo quem somos.
No meio do vazio, pode nascer um desejo.
E desejo, aqui, não é vontade imediata.
É aquilo que aponta direção.
Que dá sentido.
Que abre caminho.
E então, uma pequena mudança acontece.
O olhar se amplia.
A palavra surge.
E a vida, que parecia suspensa, volta a se movimentar.
Esse é o tipo de escuta que transforma.
Não por trazer respostas, mas por permitir que o novo possa nascer.
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