Por que eu desejo? Como eu desejo?

Na psicanálise, especialmente em Lacan, existe algo chamado fantasia, com “f” minúsculo mesmo. Ela não é a mesma coisa que imaginar algo ou sonhar acordado. A fantasia, nesse sentido, é uma estrutura invisível que organiza o nosso desejo. É como se fosse um roteiro interno, inconsciente, que usamos para nos relacionar com o mundo, com as pessoas e com o que queremos.

A fantasia não é só uma ideia qualquer. Ela é o jeito como nosso desejo se sustenta diante da falta, do que sentimos que nos falta na vida. É menos sobre "o que" queremos e mais sobre "como" queremos. Ela nasce de algo vivido, sentido no corpo, marcado simbolicamente em nós. Quando começamos a reconhecer essas fantasias, damos nome a elas. Elas viram crenças que guiam o nosso desejo.

A fantasia é como uma cena interna. O desejo é o impulso por viver essa cena. Ele precisa de personagens, de contexto, de direção. Mas às vezes essa fantasia vem de uma situação de dor, vergonha, humilhação, abandono. E então, ela começa a limitar nosso desejo. Quando isso acontece, é possível construir uma nova cena, um novo enredo, que possa nos levar a outros caminhos.

Sem fantasia, o desejo fica sem direção. E aí pode surgir confusão, angústia, sensação de vazio. A pessoa se sente perdida, sem papel, sem rumo. Isso assusta. É como atravessar um deserto entre a velha fantasia e uma nova forma de desejar. Nessa travessia, podemos paralisar, perder a vontade, nos sentir tristes ou sem sentido. Negar essa fantasia não resolve. Pelo contrário. Pode nos deixar presos em culpa, exigência e paralisia.

Criar uma nova fantasia não é questão de força de vontade. É algo mais profundo, mais sensível. Envolve sustentar o vazio sem se apressar para preenchê-lo, dar tempo para que o desejo encontre outro caminho, viver novas experiências e permitir que outras cenas surjam, pouco a pouco tirando a força do que antes nos oprimia.

A nova fantasia não é inventada da cabeça. Ela vai sendo construída no corpo, nas relações, nos encontros, nos afetos. Não é só pensar diferente. É viver diferente. É um processo. Precisa atravessar a angústia, soltar antigas identificações e testar novas formas de se posicionar no mundo. E isso leva tempo. Não é preciso descobrir tudo antes de agir.

É possível agir com calma, com cuidado, até que a necessidade real apareça.



Comentários