À primeira vista, pode soar estranho: como assim o limite nos liberta? Não seria justamente o contrário? Mas, quando olhamos mais de perto, percebemos que é justamente o limite que dá forma e sentido à liberdade.
Na filosofia, autores como Kierkegaard, Sartre e Simone de Beauvoir lembram que ser livre não significa “poder tudo”. Liberdade não é viver sem restrições, mas escolher dentro de condições que já existem. É o mundo real, com suas regras e impossibilidades, que nos coloca diante de escolhas genuínas. Se não houvesse limites, não haveria sequer a experiência da escolha, apenas a ilusão de que tudo estaria ao nosso alcance, como se fôssemos onipotentes.
Na psicanálise, o limite aparece desde cedo na vida. A criança, quando nasce, vive numa espécie de fantasia de fusão com a mãe, acreditando que seus desejos podem ser atendidos de imediato, como se tivesse poder absoluto. Se eu choro, minha mãe vem com peito, mamadeira, acalento, limpeza, colo e etc. Minha angústia é amparada pelo o outro a partir de mim. O chamado “limite paterno” (ou a lei, a castração simbólica, seja homem, mulher de qualquer parentesco) surge como uma frustração: ela descobre que não pode tudo, que não tem poderes. Esse momento, longe de ser apenas uma perda, é um ponto de virada. Porque é justamente ao se deparar com o “não” que a criança percebe: “não posso tudo, mas posso algo, então deixa eu tentar entender o que eu realmente quero." Isso dá abertura para nascimento de identidade.
É nesse “algo” que nasce a verdadeira liberdade: a possibilidade de criar, de escolher e de se tornar sujeito de sua própria história. No fundo, o limite não é um obstáculo para a liberdade, é sua condição. Sem ele, não existe espaço para que cada um de nós construa sua singularidade.

Comentários
Postar um comentário