Quando penso em angústia existencial, eu não a vejo como algo que precisa ser curado ou eliminado. Para mim, ela é sinal de vida. Ela mostra que estou diante de possibilidades e impossibilidades, isso sempre me coloca em movimento. A fenomenologia chama isso de abertura para o mundo, essa condição em que nada está totalmente definido e onde tudo me atravessa. Estar aberto ao mundo é estar diante de caminhos possíveis, diante de escolhas que só eu posso fazer. Isso é libertador, mas ao mesmo tempo pesado, porque junto com a liberdade vem a responsabilidade, e responsabilidade exige prática, sustentação e firmeza na vida.
Mas eu não ignoro o que a psicanálise traz. Quando Lacan fala da falta estrutural, desse buraco que nos constitui, eu não consigo ignorar isso. Eu acredito sim que somos seres de falta e acredito também no inconsciente. Para mim, não existe contradição entre pensar a falta e pensar a abertura. Pelo contrário, eu integro essas visões. A falta me impulsiona, a abertura me desafia. Se eu sinto fome, essa falta me move a cozinhar, pedir comida ou até chamar alguém para cozinhar comigo. Ela gera movimento. Já a abertura me coloca diante da angústia de possibilidades: o que cozinhar, como cozinhar, com quem cozinhar. Entre a falta e a abertura, encontro a responsabilidade da escolha e a busca por autenticidade. É nesse entremeio que eu vejo força criativa (como a esquizoanálise também defende): a falta gera impulso, a abertura expõe caminhos e a angústia me obriga a me posicionar.
Só que as escolhas não acontecem no vazio. Existe também consciência de classe e compreensão de diferentes tipos de realidade. A pessoa não está só diante de possibilidades, mas também de impossibilidades. Isso gera angústia existencial porque nem tudo está ao seu alcance. Reconhecer limites concretos, sociais e históricos é parte do processo. Se a pessoa se implica nisso e se responsabiliza, ela consegue criar projetos de vida, encontrar formas de se movimentar. Se ela não se implica e fica estagnada, essa angústia se transforma em ansiedade, que se manifesta em sintomas no corpo, na pele, na vida. Por isso digo que a angústia não é inimiga. É ela que sinaliza que algo precisa ser encarado, que há escolhas a serem feitas.
E aí entram as marcas da história pessoal. Muitas vezes, viemos de famílias desfuncionais, de contextos religiosos ou culturais que nos ensinaram formas tortas de existir. Essas experiências geram crenças que podem ser disfuncionais, e a partir delas formamos pensamentos que nos governam. E como todo pensamento gera alguma emoção, acabamos vivendo tristezas, ansiedades e medos sem questionar de onde eles vêm. É aí que eu acredito na importância do senso crítico. Ele serve para quebrar esses pensamentos que não são nossos, mas que foram imputados em nós. A busca pela autenticidade exige individuação, exige um processo de remodular as formas de pensar o mundo.
Aqui eu gosto de cruzar a psicanálise com a neurociência. O cérebro não é determinado, mas moldável. As conexões sinápticas que formamos na infância, nos traumas ou nas repetições podem ser questionadas. A amígdala, por exemplo, responde primeiro com emoção a uma situação, antes mesmo de o pensamento entrar em cena. Por isso não dá para confiar só no pensamento, porque ele pode estar atravessado por crenças que nem são nossas. É preciso se conectar primeiro com o corpo, com o sentir. E depois sim trabalhar pensamentos mais autênticos. Esse é o caminho: reconhecer de onde vem aquela crença, como ela foi construída, o que ela gerou. Dar contornos, quantos forem necessários, até que a pessoa se esvazie daquilo. E, então, experimentar o novo.
Esse processo de esvaziamento abre espaço para vivências diferentes, pequenas práticas e escolhas que vão criando novas sinapses e fortalecendo uma musculatura psíquica. É treino, é sustentação. Aos poucos, esse novo se torna o normal, uma nova forma de existir. Eu vejo isso como uma combinação de consciência, responsabilidade e prática.
No consultório, minha escuta é sempre fenomenológica. Eu não parto de interpretações prévias, eu deixo que o sentido da pessoa emerja a partir da experiência própria dela. Um conflito familiar pode significar sofrimento para muitos, mas não necessariamente para quem o vive. Eu preciso que a pessoa me diga o que significa para ela. Eu trabalho para que ela se torne protagonista do processo.
Quando a pessoa traz sintomas repetidos, repetições nas relações ou crenças enraizadas, eu também olho para isso com a lente da psicanálise, mas sem peso dogmático. Eu quero ver de onde vem, qual a história, quais marcas. E uso a neurociência para mostrar que o cérebro aprendeu padrões e que ele pode desaprender. Assim, a pessoa entende que não é “culpada” de ter travas ou repetições, mas pode se responsabilizar para ressignificar essas crenças.
Se a pessoa tem dificuldade de nomear sentimentos e emoções, eu gosto de trabalhar com psicoeducação. Explico de forma simples o que são aquelas emoções que estao em discussão e com conhecimentos mais rasos, como podem ser favoráveis se escutas e bem direcionadas. Mas nunca as escuto de forma engessada, porque cada corpo sente de um jeito. Ansiedade pode ser aceleração cardíaca para uns, mas para outros pode ser embrulho no estômago. O importante é que cada um reconheça sua forma de sentir.
Eu também acredito que quanto mais a pessoa caminha em direção à autenticidade, mais ela percebe os eventos sincrônicos. A sincronicidade é uma forma de leitura de vida que dá sentido e mostra conexões maiores. Basicamente é um sinal que surge aos atentos como confirmação de que estão coerentes dentro e fora, de que o caminho é seguro, autêntico e trará bons frutos.
E quando o trabalho verbal se mostra limitado, gosto de abrir espaço para processos criativos. Se a pessoa tem abertura, a arte pode ser um canal potente de acesso ao corpo e ao sentir. Como Wilhelm Reich já dizia, muitas pessoas estão cobertas de couraças e não conseguem acessar o sensível. A arte pode quebrar essas couraças, reativar o contato com o corpo e com o presente, ativando o sensório/motor. Pode ser uma pintura, uma dança, um instrumento, algo feito em família, em casal ou individualmente. Eu não dou exercícios prontos, eu dou ideias para que a pessoa experimente aquilo que faz sentido para ela. Sempre o que faz sentido e que haja objetivo para destraves e promoção de tomadas de consciência. Isso também se torna material clínico e expansão de consciência e autoconhecimento.
No fim, o que guia meu trabalho é a escuta, a busca por autenticidade e a confiança de que cada pessoa tem em si a possibilidade de se reinventar. A angústia existencial, a falta, as repetições, as travas do corpo e da mente, tudo isso pode ser visto não como destino, mas como convite ao movimento.
No fim, o que guia meu trabalho é a escuta, a busca por autenticidade e a confiança de que cada pessoa tem em si a possibilidade de se reinventar. A angústia existencial, a falta, as repetições, as travas do corpo e da mente, tudo isso pode ser visto não como destino, mas como convite ao movimento.
Comentários
Postar um comentário