O que a terapia faz?


Muitas pessoas chegam à terapia com a mesma sensação: “eu sei o que preciso fazer, mas não consigo”. É como se houvesse uma força invisível segurando, algo mais forte do que a vontade ou a razão. Essa força, que comanda pensamentos e comportamentos de maneira quase automática, muitas vezes são as crenças que carregamos. Mas o que são essas crenças, afinal? A neurociência mostra que cada vez que vivemos uma experiência significativa, nosso cérebro cria conexões entre neurônios, chamadas sinapses. Quando pensamos ou sentimos algo repetidas vezes, essa ligação se fortalece, e quanto mais emoção envolve a experiência, mais firme ela fica. É como se a emoção fosse um cimento que fixa aquela memória no corpo e na mente. Com o tempo, essas conexões viram verdadeiros atalhos, trilhas por onde nossos pensamentos passam sempre que algo semelhante acontece.

Por isso, crenças não são apenas ideias abstratas, mas memórias emocionais que moldam nosso jeito de sentir e reagir. E aqui está a questão: uma parte de nós pode entender racionalmente o que precisa ser feito, mas outra parte, mais profunda, ligada às emoções, ainda reage como se fosse arriscado mudar. O cérebro racional diz “vai em frente”, enquanto o cérebro emocional grita “cuidado”. E, claro, acabamos ficando presos. A mudança não é simples porque o cérebro não apaga trilhas antigas da noite para o dia, ele precisa criar novos caminhos, e para isso exige repetição, novas experiências e segurança emocional. É esse processo de construção que chamamos de neuroplasticidade.

A terapia nesse sentido pode ser comparada a um rio, porque nossos pensamentos e emoções fluem como água que corre sempre para o mesmo leito já aberto. A crença antiga é o canal que se aprofundou ao longo dos anos e por isso a correnteza parece inevitável. Mas pouco a pouco a escuta, o acolhimento e os movimentos internos abrem pequenos desvios, novas passagens por onde a água começa a se arriscar a correr. No início esses desvios são apenas filetes frágeis, mas com o tempo e a repetição eles se fortalecem, até que um dia a água descobre que pode escolher outro caminho para seguir.

Na terapia, esse caminho de transformação vai acontecendo em etapas que se repetem de diferentes formas. Primeiro, o paciente ativa suas memórias ao falar sobre os acontecimentos do dia a dia. Ao trazer essas experiências, sentimentos começam a aparecer, e o trabalho passa a ser nomeá-los, dar um nome ao que se sente já abre um espaço de consciência. Logo, surge a crença escondida por trás da emoção, aquelas frases internas que funcionam como verdades: “não sou suficiente”, “ninguém se importa comigo”, “não posso confiar”. Ao identificar essa crença, é possível olhar para trás e perceber de onde ela veio, em que momentos da vida foi construída, quase sempre em situações marcantes da infância ou de relações significativas. A partir daí, o processo convida ao confronto, será que isso ainda é verdadeiro hoje, será que não existem experiências que mostram o contrário?

Esse movimento abre espaço para algo essencial, a escolha. E aqui entra o aspecto existencial da terapia. Mesmo que nossas crenças tenham sido formadas por circunstâncias que não controlávamos, podemos decidir como lidar com elas no presente. Escolher é retomar a autoria da própria vida. Mas não basta decidir apenas com a razão, é preciso praticar. Pequenas ações no cotidiano dão ao cérebro a chance de viver algo novo, de experimentar uma emoção diferente daquela prevista pela crença antiga. E quanto mais vezes isso se repete, mais o novo caminho se fortalece, até que se torne natural.

Por isso a terapia não é apenas uma conversa. É um espaço em que memórias são reativadas, crenças ocultas são iluminadas e novos caminhos vão sendo cavados pouco a pouco. É um processo que exige tempo, porque assim como o cérebro precisou de anos para construir certas crenças limitantes, também precisa de tempo para consolidar crenças libertadoras. Cada sessão é uma oportunidade de se perceber de outra forma, de se sentir de outro jeito e de escolher viver com mais consciência, liberdade e sentido.




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