Na leitura winnicottiana, o “dar colo” é mais do que um gesto físico. É uma função emocional. Representa o acolhimento que permite ao outro existir com segurança diante do desconhecido. É o espaço transicional onde o ser pode se sustentar sem medo, onde o cuidado antecede a palavra e o olhar comunica o essencial. Dar colo na chegada. Como quem estabelece um laço. Como em qualquer relação da vida.
Por isso, quando encontro alguém, não começo fazendo perguntas íntimas. Primeiro, gero vínculo. Crio o espaço de confiança onde a intimidade pode acontecer se a pessoa quiser. Dou abertura, mas não invado. O colo é o convite silencioso para que o outro se mostre no seu tempo.
A relação entre é esse espaço que se cria no meio. É o campo compartilhado entre quem oferece e quem recebe. Como diz a Gestalt, “a relação é o que acontece entre duas pessoas quando cada uma está disposta a se deixar tocar pela presença da outra”. É o encontro que se constrói na disponibilidade e no afeto, onde o contato verdadeiro acontece sem pressa, sem técnica que anteceda o humano.
Na educação parental voltada para uma perspectiva neurocompatível, entendemos que aquele cérebro ainda em desenvolvimento precisa de autorregulação antes de compreender, antes de ampliar perspectivas, antes de aprender. Assim como na enfermagem, diante de um acidente, o primeiro passo é estancar o sangue, lavar o machucado, aliviar a dor latente. Só depois se aprofunda no sintoma, se busca o prognóstico e se propõe o acompanhamento.
Na psicoterapia, o processo é parecido. A angústia, a dor e o sofrimento aparecem como esse machucado que precisa primeiro ser cuidado. O terapeuta não “cura” o outro. Ele ajuda a estancar o que sangra, oferece um espaço seguro para que a ferida respire, e acompanha o tempo de cicatrização. O cuidado não está em fechar rápido, mas em sustentar o processo enquanto o corpo e a alma fazem o próprio trabalho de cura.
Com o tempo, a ferida deixa de sangrar. Vira marca. Já não dói quando alguém toca, mas ainda conta uma história. É algo que faz parte de quem somos, mas não domina mais nossos dias. Não precisa mais de curativo, apenas de lembrança e respeito.
E é isso que a psicoterapia propõe: um espaço onde a dor encontra cuidado, o cuidado encontra tempo, e o tempo encontra transformação. É um processo vivo, feito de encontros, pausas e redescobertas.
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