O que é a clínica fenomenológico-existencial?

 Durante muito tempo, a psicologia buscou compreender o ser humano a partir de grandes forças. A abordagem comportamental ajudou a observar o que é visível, os comportamentos, os padrões aprendidos e repetidos no contato com o ambiente. A psicanálise voltou o olhar para o inconsciente, para a história, para aquilo que nos atravessa sem que percebamos. A psicologia analítica ampliou esse campo, trazendo símbolos, imagens e sentidos profundos da experiência psíquica. Cada uma dessas vertentes contribuiu de forma decisiva para entendermos quem somos.

Com o tempo, outras leituras também se tornaram fundamentais. A esquizoanálise passou a olhar o sujeito em relação direta com o seu meio, com os dispositivos sociais, culturais e políticos que o atravessam e o produzem. Um olhar que entende que não somos formados apenas por falta ou carência, mas também pela potência criadora que emerge justamente dessas brechas. A falta deixa de ser apenas ausência e passa a ser força inventiva de novos modos de existir.

A neurociência dos afetos, por sua vez, vem confirmando algo que a clínica já percebia há muito tempo. Sentimos antes de pensar. O corpo reage, os afetos se movimentam, e só depois o pensamento tenta organizar, nomear, dar contorno ao que foi vivido. A experiência do sentir antecede a elaboração racional, e ignorar isso é ignorar uma parte essencial do humano.

Ainda assim, mesmo com tantas contribuições valiosas, algo da experiência viva seguia escapando quando cada teoria era aplicada de forma isolada. O vivido no presente, o corpo que sente, a angústia que emerge no agora, a escolha que se impõe diante da vida concreta.

É nesse ponto que a abordagem fenomenológico-existencial se apresenta como um campo de integração. Um modo de fazer clínica que não descarta nenhuma dessas leituras, mas também não se submete a elas. Uma escuta que pode reconhecer padrões de comportamento, acolher manifestações do inconsciente, perceber forças ancestrais que nos constituíram e, ao mesmo tempo, se manter aberta à experiência viva que se revela no encontro. A pergunta deixa de ser por que isso acontece e passa a ser como isso acontece na vida dessa pessoa, no corpo, nas relações, nos afetos.

A fenomenologia sustenta uma escuta sem pressupostos, interessada em como a experiência se apresenta para aquele sujeito. O existencialismo convida a olhar para as escolhas, para os sentidos que a vida continuamente nos solicita construir. Porque existir é escolher, mesmo quando escolher implica perder algo. A vida é sempre um movimento de construção de sentidos, e escolhas conscientes só se tornam possíveis quando há apropriação da própria história, do próprio desejo e da própria autenticidade.

A potência dessa clínica está justamente na ampliação do olhar. No conhecimento de diversas fontes que não servem para explicar o sujeito, mas para facilitar o seu revelar a si mesmo. Sem ignorar o inconsciente e suas manifestações. Sem deixar de reconhecer a ancestralidade como força viva que nos atravessa no aqui e agora. Sem perder de vista que cada pessoa está constantemente sendo convocada a se posicionar diante da própria existência.

A terapia se constrói no encontro, na presença e no cuidado com as palavras e os silêncios. Aquilo que aparece entre terapeuta e paciente é parte fundamental do processo. A relação não é um detalhe técnico, é um elemento vivo da clínica. Não há respostas prontas, há uma investigação compartilhada que se sustenta no vínculo.

No fundo, a clínica fenomenológico-existencial parte de uma ideia simples e profundamente humana. O ser humano não é um problema a ser resolvido. É uma experiência a ser compreendida.




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