O reflexo do convívio em minha cabeça

Quando se convive muito com uma pessoa, você absorve o jeito dela de pensar. Você absorve a linha de raciocínio dessa pessoa. Nós somos feitos de uma rede de pensamentos e sensações. Essas correntes que conectam esses dois polos criam formas de pensar e de aceitar a vida por esse ângulo. Estamos todos em um campo existencial sem sabermos bem o caminho e os motivos dessa jornada, cada um enxergando o mundo a partir da sua própria perspectiva. Talvez venha daí essa sensação de solidão sem fim. Estamos só aqui dentro, e aqui dentro é muita coisa.

Aqui fora temos essa rede de pessoas com quem convivemos e colaboramos com o jeito de pensar, e juntos com isso apenas sustentamos o existir, muitas vezes de formas que não nos favorecem. Buscamos sempre o que é certo ou errado, e muitas das vezes mais sob a ótica alheia. Coisa que jamais teremos acesso de fato. É uma tentativa como quem joga jogos de azar ou roleta-russa. É sempre uma aposta. Ficamos alienados da nossa própria realidade em prol de algo que, mesmo com todas as informações, jamais iremos acessar completamente. Tentativa e erro, partindo sempre do julgamento do que é certo ou errado.

Pensei também que quando nos relacionamos com alguém, compartilhamos do seu modo de existir. Aos poucos vamos observando e absorvendo suas próprias vias do fluxo do pensamento, suas interpretações diante do mundo e, naturalmente, pegamos umas poucas delas. Somos parte de todos que nos atravessam. Algo dos outros nos desperta a olhar algo dentro de nós. Mas nós também olhamos algo do outro e reproduzimos. É um processo natural da convivência.

Com isso, quando nos distanciamos, comumente questionamos o que é meu e o que é do outro. Já não são mais somente os gostos, são essas correntes, literalmente falando. Programação. Ordem do inconsciente. Ordenação e comando. Pensamos, sentimos e reproduzimos de alguma forma. Não somente repetindo, mas também contrariando, reafirmando, atualizando e por aí vai. Mas quase sempre partindo do outro, mesmo quando parece vir de nós, mesmo que esse outro seja uma imagem do audiovisual ou de uma revista. Precisamos de algo que nos desperte para que isso nos faça nos ouvir, mas precisamos também de cuidado com quem está em nossos entornos, porque somos parte deles. E vamos carregando partes desses outros conosco, literalmente dentro das nossas cabeças. E às vezes por tempos sem fim.


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