O que o Outro quer de mim?

Que pergunta seria essa “O que o Outro quer de mim?”
“Até parece que me importo e vivo preocupada em analisar como pertencer.” Imagino alguns respondendo isso, principalmente aqueles que olham pela borda, proclamando discursos libertários como “eu vivo por mim”, “eu atendo meus desejos e o que é do outro, ele que corra atrás”. Mas será que nas profundezas é bem assim?

A psicanálise diria, com muitos argumentos, alguns que dão nós em nossas cabeças, que essa é a pergunta que fundamenta nossa psiquê, independente do tipo de pessoa que você seja. Termos famosos criados por Freud como “histeria” e “obsessão”, estruturas constituídas a partir do que nos falta e de como nossa mente se organiza em torno do Eu, repetem essa mesma pergunta, mas partem de lugares completamente diferentes.

Fica aqui comigo, que vou te contar mais sobre isso. Mas vamos por partes, porque esse assunto é denso, confuso e cheio de nomes que podem nos levar a compreensões dentro do senso comum e causar até certo ranço se não forem bem interpretados.

Tenho pensado muito ultimamente sobre o desejo. De novo. Psicólogo não analisa suas relações no sentido comum, porque o processo de análise exige muito mais do que convivência e trocas cotidianas. Ainda assim, tenho um interesse profundo em analisar os eventos, seus porquês e seus atravessamentos em mim e no outro. Se desejo tal coisa, o que acontece comigo quando o desejo não se realiza e por quê? Por que desejo isso? Por que esse desejo não se manifestou? E se não se manifestou, não aconteceu, qual é minha mea-culpa nisso tudo?

Já escrevi em outro texto mais antigo aqui do blog, “Tentar prever serviu pra eu me enganar”, algo que acendeu um alerta em mim de que certas performances eram mesmo tentativas de anular meu desejo. Minha busca era revisitar uma dor fantasmática em nome de uma necessidade de reparação. Aquela da infância. Da fantasia que criei sobre o que merecia e não recebi. Isso, de certa forma, me constituiu e me deu algum senso de identidade, a que não recebe, a que não tem.

E quem quer se alienar de si? A gente comprova o que acredita o tempo todo. Se eu acredito não ser merecedora de algo, vou fazer por não merecer. Assim, meu cérebro se organiza “lindamente”, porque é isso que ele conhece, essa trilha que ele sabe o caminho, mesmo que gere tristeza, dor e frustração. É nesse vazio que meu inconsciente se orienta a chegar, mesmo quando meu consciente acredita em outro destino.

Me compreender como alguém que criou sua identidade atravessada pela falta e que não assume os próprios desejos, mas provoca o desejo do outro para confirmar sua própria existência, me fez revisitar a psicanálise e buscar entender mais sobre o deslocamento de fantasias sintomáticas.

Primeiro ponto. O que é histeria e obsessão?
Segundo ponto. Por que estamos falando disso e da minha angústia automática em me autossabotar?

Antes de explicar o que é cada uma dessas estruturas e como elas se manifestam na prática, quero dizer que, na infância, quando o afeto dos cuidadores é instável, pouco explícito ou imprevisível, a criança aprende que existir depende de decifrar o outro. Não basta somente ser quem é. Isso custaria muito. É preciso ser desejável, ser necessária, ser suficiente.

A falta de afeto não precisa ser violenta ou negligente. Basta que o cuidado exista sem ternura, sem nomeação emocional, sem presença sensível. A criança pode ser cuidada, mas não sentida. Faltam afirmações como “você é especial para mim”. E aí nasce a ferida da histeria. “Eu posso até ser vista, atendida e cuidada, mas não sou desejada”.

Isso marca uma vida e uma forma de viver, criando a pergunta que sustenta a existência. “O que eu sou para o desejo do outro?” A histérica quer ser desejada, admirada, reconhecida, mas não completamente satisfeita. Parece contraditório, mas se o outro aplaca a falta, a fonte que sustenta o desejo seca. O desejo morre e a existência se esvazia.

Por isso, podem acontecer movimentos como provocar o desejo para se sentir viva, mas recuar da entrega plena. Buscar o olhar do outro, mas se sentir sufocada quando recebe atenção demais. Desejar ser única, mas ter pavor da fusão. No fim, a histérica sofre mais com a indiferença do que com a ausência concreta. Na infância, isso costuma se formar quando o amor é percebido como algo a ser conquistado, e não dado. O corpo, a imagem, a sensibilidade e a inteligência passam a funcionar como moeda de valor.

Na estrutura obsessiva, a pergunta que fundamenta muda para “Tenho direito de assumir o que desejo?” O obsessivo aprende cedo demais que desejar pode causar conflito, desorganizar o outro, gerar culpa ou trazer punição. A solução encontrada é adiar o próprio desejo. Ele atende demandas, cuida, sustenta, organiza, mas posterga a si mesmo.

Quando finalmente deseja, sente culpa. Quando realiza, sente vazio. Quando entrega demais, sente ressentimento do outro. Não é que o obsessivo não deseje. Ele deseja sob vigilância. Opera pela lógica do controle do tempo e das ações, teme errar, prefere sustentar a fantasia a agir e, por fim, sofre com a sensação constante de “não era isso”. Aqui, o desejo não circula. Ele fica suspenso.

Diferenciando ambos, o histérico acredita que, se for desejável, ele existe. Já o obsessivo teme que, se desejar, algo muito ruim aconteça. Ambos fogem de assumir o próprio desejo.

O que acontece na fantasia do histérico se ele assumir seus desejos? Ele prefere nem olhar para eles para não lidar com a rejeição. Ainda assim, lida com a frustração constante quando o desejo do outro não corresponde à cena fantasiada. O obsessivo evita desejar porque sente que isso pode implicar a existência do outro, que parece valer mais do que a sua própria. No fundo, ambos vivem em função de decifrar o outro.

E isso é saudável? De certa forma, sim. A psiquê cria essas estruturas para salvar a criança e ajudá-la a lidar com o que era possível. Isso se torna sintoma quando, na vida adulta, seguimos “gozando” das insatisfações geradas por não assumirmos nossos desejos e pela promessa inconsciente de que o outro nos trará algum valor se eu dançar conforme a música da minha própria psiquê.

Amadurecer não nos trará reparações do que nos faltou. Mas, ao tomar consciência dos nossos enredos, podemos parar de viver em função do que não vem. Podemos assumir nossos desejos e perceber que não morremos quando eles não acontecem. Que, se o outro se desorganiza, isso é problema do outro. Que não devemos transformar pedidos em prova de valor, mas sustentar o desejo e a satisfação no presente, no que acontece ali.

Sair do sintoma não é virar alguém sem falta. É parar de usar o outro para tamponar a falta. Isso aparece quando você pede sem pedir permissão para existir, aceita ouvir “não” sem colapsar, recebe prazer sem exigir reparação, escolhe sem transformar a escolha em identidade e sustenta o desejo mesmo com risco.

O desejo só existe onde há risco porque só existe onde não há garantia.




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